Microbiota uterina e fertilidade

Microbiota uterina e fertilidade

Se ainda acha que o útero é um lugar estéril, sem bactérias, então este artigo é para si.

Se deseja engravidar, este artigo é para si.

Se já teve abortos espontâneos ou falhas de implantação em processos de fertilização in vitro, este artigo é para si.

Se o seu ginecologista ou equipa de Procriação Medicamente Assistida nunca lhe falaram de microbiota uterina, então este artigo é, urgentemente, para todos eles, com pelo menos 31 anos de atraso.

E agora que já vimos que este artigo é para toda a gente, vamos aprender afinal o que é microbiota uterina.

Com certeza que já ouviu falar de microbiota intestinal, ou seja, das bactérias que habitam o nosso intestino e que tantas funções têm no nosso organismo, a nível da produção de certas vitaminas, processamento de alguns nutrientes, regulação do humor, do apetite, da composição corporal, entre outras.

A microbiota uterina consiste no tipo e número de bactérias que estão presentes no nosso útero, orgão que se acreditava ser estéril (isento de microorganismos) até há alguns anos atrás. Quando digo alguns, falo há pelo menos 31 (não são “alguns”, estava só a ser simpática), visto que em 1989, Hemsell e a sua equipa de investigadores já escreviam um artigo intitulado “Endometrial bacteria in assymptomatic, non-pregnant women”, que, traduzindo, fala sobre a existência de bactérias no endométrio (uma camada do útero).

Por incrível que pareça, só agora se vai ouvindo falar mais sobre microbiota uterina e sobre o seu papel na fertilidade. Isto demonstra 3 coisas:

  1. A Ciência demora demasiado tempo a ser difundida;
  2. Cada um de nós é responsável por escolher um médico ou outro profissional de saúde que garantidamente se atualize (a responsabilidade do profissional estudar ou não é dele, mas a responsabilidade de escolher um profissional atualizado ou não é inteiramente nossa);
  3. Cada um de nós deve ter um papel ativo e não passivo naquilo que diz respeito à sua saúde.

Vamos seguir com a microbiota uterina.

Apesar desta descoberta já ter vários anos, ainda há muito por saber e muitas respostas por dar.

Não se sabe ainda de que forma exata esta microbiota determina questões relacionadas com a fertilidade, mas que exerce uma influência, que o tipo e quantidade de bactérias presentes no útero de mulheres com ou sem infertilidade é diferente, isso já se sabe. E se já se sabe, tem de ser tido em conta, ainda para mais numa questão tão dispendiosa em termos de recursos emocionais e financeiros quanto a infertilidade.

Sabe-se que existe um continuum bacteriano desde a entrada da vagina até ao útero e trompas, sendo que a microbiota da vagina tem várias semelhanças com a microbiota uterina, mas não são completamente iguais.

Sabe-se também que a maior prevalência de Lactobacilos spp. na vagina e na cavidade uterina estão associados com melhores resultados no que diz respeito à gravidez (maior sucesso na implantação, na manutenção da gravidez e menor taxa de abortos espontâneos).

Sabe-se que a predominância de outras bactérias que não Lactobacilos spp. se pode associar a disbiose uterina, que por sua vez de associa a infertilidade.

Isto pode parecer abstrato ou muito moderno mas não o é, até porque existe um vasto conhecimento e prática clínica acerca de como condições como a endometrite crónica, um caso representativo de alteração de microbiota, podem estar associadas a uma redução na implantação e sucesso da gravidez, conduzindo a infertilidade, por uma maior inflamação e ativação imunológica.

Outro exemplo é o caso da endometriose, doença de origem ainda não totalmente compreendida, mas onde a investigação já reconhece haver um possível papel de microorganismos patogénicos envolvidos na origem da doença, pelo facto de se ter identificado a presença e predominância de outras bactérias, em detrimento dos Lactobacilos, em amostras de endométrio e de fluxo menstrual de mulheres com endometriose. Também se sabe que mulheres com infertilidade associada à endometriose têm uma microbiota uterina diferente de mulheres com endometriose sem infertilidade.

Também mulheres com adenomiose (tecido endometrial no miométrio) apresentam perfis diferentes de microbiota, quando comparadas com mulheres sem adenomiose.

Posto

Com isto, torna-se óbvio que a microbiota uterina, além de existir, é importante para a nossa saúde e fertilidade.

Penso que a evidência revista até aqui deixa claro que a abordagem à (in)fertilidade deve ser multifatorial e incluir o estudo da nossa microbiota, para que se evitem tentativas falhadas e desgastantes de se chegar ao sucesso de uma gravidez.

Espero que o artigo tenha sido útil! Divulguem 😉



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